A queda de cabelo pós-Covid ocorre por uma alteração no ciclo capilar também chamada de eflúvio telógeno agudo. O eflúvio é caracterizado por uma queda capilar significativa (ou seja, ao invés de termos 100-120 fios caindo diariamente, temos 200-300 fios), como consequência de uma mudança abrupta da fase de crescimento (anágena) para a fase de repouso (telógena). A fase de repouso tem um período de duração de 3 a 6 meses, que é então sucedido por queda capilar intensa. Isso porque o período de preparo para a queda dura de dois a três meses e os fios se desprendem ao final desse ciclo. Esse período de repouso é chamado de fase catágena. Essa mudança no ciclo capilar pode ocorrer por diversos gatilhos, dentre eles o estresse, alterações metabólicas ou nutricionais, o uso de determinados medicamentos, anestesias e cirurgias, pós-parto, febre, dietas muito restritivas. Em geral, 70% dos casos têm o agente descoberto. Já nos 30% restantes a causa acaba por não ser definida.
No caso da infecção por Covid-19, há uma liberação imediata de folículos capilares em estado anágeno, que mudam de fase para o estado catágeno (repouso) e, subsequentemente, entram no estado telógeno (queda). As citocinas pró-inflamatórias (marcadores e mediadores de inflamação produzidos pelo próprio organismo em resposta ao vírus) atuam como um gatilho para o processo, embora os medicamentos utilizados em alguns casos (como por exemplo, anticoagulantes) também possam ser responsáveis. Dados coletados em centros de referência para o estudo das manifestações clínicas da doença em diversos países mostram que, de mais de 200 pacientes com queda capilar pós-Covid, 80% eram do sexo feminino, com média de idade de 47 anos (variando de 15-88 anos), sendo que a maioria apresentou como sintoma de Covid a febre. Poucos apresentaram outras lesões cutâneas além da queda capilar e poucos tinham evoluído para estado grave. Os autores sugerem que mesmo a infecção que cursa com poucos sintomas (chamada de subclínica) ou até mesmo sem nenhum sintoma (assintomática) são fatores de risco para o desenvolvimento do eflúvio telógeno agudo. A gravidade da infecção, ou seja, necessidade de internação e suporte, não necessariamente foi associada a um quadro de eflúvio mais grave. É esperado que 1 a cada 10 pacientes infectados por Covid-19 irá desenvolver eflúvio telógeno. Logo, no contexto atual da pandemia, a infecção prévia (3 a 6 meses anteriores ao início do quadro) deve ser considerada em todos os pacientes que apresentam a queda de cabelo aguda, principalmente mulheres (que corresponderam a 80% da população do estudo). Quando comparada ao eflúvio telógeno causado por outras doenças infecciosas, a evolução parece ser semelhante e autolimitada.
A apresentação clínica mais comum é a queda capilar intensa (mais de 100 fios por dia), que é observada principalmente na lavagem do couro cabeludo no banho, no travesseiro ao acordar e na escova ao pentear os cabelos, com diminuição do volume capilar (visível principalmente ao prender os cabelos, afinamento do ?rabo de cavalo?) e rarefação da região frontotemporal, com a formação das ?entradas?.
A avaliação deve ser feita pelo médico dermatologista, que irá examinar clínica e complementarmente com o dermatoscópio (lente especial que permite aumentar o campo visual e realizar a tricoscopia), diagnosticar o tipo específico de queda e a existência de outros fatores que possam estar associados ou outras doenças do couro cabeludo e dos fios.
No tratamento do eflúvio pós-Covid, pode ser realizado apenas o acompanhamento clínico nos casos mais leves e autolimitados (que durarão 3 a 4 meses), ou implementar tratamentos que estimulam e aceleram o crescimento capilar nos casos moderados a graves, que podem ser tópicos (soluções medicamentosas, loções e shampoos específicos), intradérmicos (aplicação de ativos diretamente no couro cabeludo para uma maior absorção) e sistêmicos (medicamentos e suplementos nutricionais por via oral). Em alguns casos, ocorre um impacto psicológico importante, que gera estresse emocional e diminuição da autoestima, que pode agravar o problema, gerando intensificação ou prolongamento do período de queda. É importante frisar que o tratamento é individualizado, ou seja, específico para cada paciente, de acordo com a sua necessidade, disponibilidade e motivação, não devendo ser compartilhado ou comparado com outros pacientes, o que pode atrasar a consulta com o médico especialista e gerar ainda mais frustração.
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Referência complementar: Moreno-Arrones OM, Lobato-Berezo A, Gomez-Zubiaur A, et al. SARS-CoV-2-induced telogen effluvium: a multicentric study. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2021 Mar;35(3):e181-e183. doi: 10.1111/jdv.17045. Epub 2020 Dec 9. PMID: 33220124; PMCID: PMC7753386.